Este é o terceiro artigo de Victor Serge, publicado em La Révolution prolétarienne (em 25 de agosto de 1938), sobre o massacre de Kronstadt, nos marcos do debate com Trotsky iniciado onze meses antes, em 10 de setembro de 1937.
Veja também:
Kronstadt (Révolução Prolétarienne, 10 de setembro de 1937)
Os escritos e os fatos (La Révolution prolétarienne, 25 de outubro de 1937)
Kronstadt 1921. Defesa de Trotsky. Resposta a Trotsky. (La Révolution prolétarienne, 25 de outubro de 1938)
Victor Serge e o totalitarismo stalinista (Vídeo em Subversivídeos sobre Victor Serge)
A carta seguinte foi enviada em fim de abril à redação da excelente revista marxista americana The New International, que publicara vários artigos sobre os acontecimentos de 1921 em Kronstad.
Victor Serge
![]() |
Victor Serge, nos últimos anos, no México. |
Algum dia responderei aos artigos de Wright e L. D. Trotsky sobre Kronstad. Esse importante assunto merece ser retomado a fundo, e os dois estudos que vocês publicaram estão longe, muito longe, de o esgotar; estou espantado de ver nossos camaradas Wright e L. D. Trotsky usarem de um raciocínio do qual, me parece, devemos desconfiar e nos abster. Eles constatam que o drama de Kronstadt em 1921 suscita comentários indiscriminadamente de socialistas-revolucionários, mencheviques, anarquistas e outros; e, deste fato, natural numa época de confusão ideológica, de revisão de valores, de confrontos entre seitas, eles deduzem um tipo de amálgama. Desconfiemos dos amálgamas e dos raciocínios mecânicos. Abusou-se muito disso na revolução russa e veja aonde isso conduz: liberais burgueses, mencheviques, anarquistas, marxistas revolucionários consideram o drama de Kronstadt de pontos de vistas diferentes e por razões diferentes das quais é justo e necessário ter conta, em lugar de reunir todos os espíritos críticos sob uma única rubrica e de imputar a todos a mesma hostilidade em face do bolchevismo.
O problema é, na verdade, muito
mais vasto, mesmo que o acontecimento de Kronstadt tenha sido apenas um episódio. Wright
e L. D. Trotsky sustentam uma tese muito simples: que a sublevação de Kronstadt
foi objetivamente contrarrevolucionário e que a política do Comitê Central de Lênin
e Trotsky nessa época foi justa antes, durante e depois. Justa, essa política o
era em uma escala histórica. Além disso, grandiosa, o que lhe permite a ser
tragicamente e perigosamente falsa, errada, em diversas circunstâncias
particulares. Eis o que seria útil e corajoso reconhecer hoje, ao invés de
afirmar a infalibilidade de uma linha geral 1917-1923. Resta, em bloco, que as
sublevações de Kronstadt e outros lugares significaram ao partido a
impossibilidade de perseverar na via do comunismo de guerra. O país morria de estatização
excessiva. Quem tinha, portanto, razão? O Comitê Central que se obtinha em uma
via sem saída ou as massas levadas ao extremo pela fome? Parece-me inegável que
Lênin cometia então o maior erro de sua vida. Precisa lembrar que, algumas
semanas antes do estabelecimento da NEP, Bukharin publicava uma obra de
Economia demonstrando que o sistema em vigor era ainda a primeira fase do
socialismo? Por haver, em suas Cartas a Lênin, preconizado medidas de
reconciliação com os camponeses, o historiador Rojkov foi deportado a Psikov.
Kronstadt, uma vez insurrecta, precisou ser contida, sem dúvida. Mas o que se
fez para prevenir a insurreição? Por que foi recusada a mediação dos
anarquistas de Petrogrado? Pode-se, enfim, justificar o massacre insensato e,
repito, abominável dos vencidos de Kronstadt, que se fuzilaria ainda em pequenos
grupos, na prisão de Petrogrado, três meses após o fim da sublevação? Eram
pessoas do povo russo, atrasadas talvez, mas que pertencia às massas da própria
revolução.
L. D. Trotsky sublinha que os
marinheiros e soldados de Kronstadt em 1921 não eram mais, quanto à consciência
revolucionária, as mesmas que aqueles de 1918. É verdade. Mas o partido de 1921
era o mesmo que o de 1918? Não sofrera já
um esmagamento burocrático que, frequentemente, ou o distanciava das
massas e o tornava desumano em face delas? Seria bom reler, a esse propósito,
as críticas formuladas antes pela Oposição Operária contra o regime burocrático;
e também se lembrar dos maus procedimentos que fizeram sua aparição durante a
discussão sobre os sindicatos em 1920. De minha parte, fiquei indignado ao ver
as manobras das quais fez uso a maioria em Petrogrado para silenciar as vozes
dos trotskistas e da Oposição Operária (que defendiam teses diametralmente opostas).
A questão que domina hoje todo
debate é em substância esta: quando e como o bolchevismo começou a degenerar?
Quando e como ele começou a usar
em face das massas trabalhadoras, das quais exprimia a energia e a consciência
mais alta, métodos não socialistas que é preciso condenar, porque elas
terminaram por assegurar a vitória da burocracia sobre o proletariado?
Posta essa questão, percebe-se
que os primeiros sintomas do mal remontam longe. Desde 1920, os
social-democratas mencheviques foram falsamente acusados, em um comunicado da Tcheca,
de espionagem para inimigo, de sabotagem, etc. Esse comunicado, monstruosamente
falso, serviu para os colocar fora da Lei. A partir do mesmo ano, os
anarquistas foram presos na Rússia inteira, após uma promessa formal de
legalização do movimento e após o pelo Comitê Central, que não tinha mais
necessidade do Exército negro, haver rompido o acordo de paz assinado com Makhno.
A justeza revolucionária do conjunto de uma política não pode, a meus olhos, justificar
esses funestos procedimentos. E os fatos que eu cito estão infelizmente longe
de ser os únicos.
Remontemos a mais longe ainda. Não
chegou o momento de constatar que o dia do ano glorioso de 1918, em que o Comitê
Central do partido decidiu permitir às comissões extraordinárias [da Tcheca] aplicar
a pena de morte em procedimento secreto,
sem escutar os acusados que não podiam se defender, é um dia vergonhoso? Neste
dia, o Comitê Central podia restabelecer ou não restabelecer um procedimento
processual esquecido pela civilização europeia. Em todo caso, ele cometeu um
erro. Não cabe necessariamente a um partido socialista vitorioso cometer um
erro como esse. A revolução podia se defender a partir do interior –e mesmo
impiedosamente –sem isso. Seria melhor defendida sem isso.
Estaríamos muito errados em nos dissimular
agora que toda a conquista histórica da revolução russa está posta em questão. Da
imensa experiência do bolchevismo, os marxistas revolucionários só saberão o
essencial, ou o durável, retomando todos os problemas pela base, com uma
verdadeira liberdade de espírito, sem amor próprio de partido, sem hostilidade
irredutível (sobretudo na pesquisa histórica) em face das outras tendências do
movimento operário. Ao contrário, se nada reconhecermos dos erros antigos, dos
quais a história não cessou de ressaltar a gravidade, nos arriscamos a
comprometer toda conquista do bolchevismo. O episódio de Kronstadt coloca
sempre as questões das relações entre o partido do proletariado e as massas, do
regime interno do partido (a Oposição Operária foi intimidada), da ética
socialista (todo o Petrogrado foi enganado pelo anúncio de um movimento branco
em Kronstadt), da desumanidade na luta das classes e, sobretudo, na luta no
seio de nossas classes. Enfim, nos coloca hoje à prova da nossa capacidade de
autocrítica.
Não podendo responder mais a fundo, nesse momento, aos camaradas Wright e L. D. Trotsky, espero que vocês achem por bem submeter esta carta aos leitores do The New International. Talvez ela contribua a preparar debates que nós devemos saber conduzir bem em um espírito de camaradagem.
Publicado em Serge, Victor; Trotsky, Leon. La lutte contre le stalinisme: correspondance inédite, articles. Paris : François Maspéro, 1977, p. 217-220. Tradução ao português: Emiliano Aquino.