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segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Kronstadt 1921. Defesa de Trotsky. Resposta a Trotsky.

Este é o quarto e último artigo de Victor Serge, publicado em La Révolution prolétarienne (em 25 de outubro de 1938), em sua polêmica pública com Trotsky sobre o massacre de Kronstadt, que se iniciou um anos antes, em setembro de 1937.

Veja também: 

Kronstadt (Révolução Prolétarienne, 10 de setembro de 1937)

Os escritos e os fatos (La Révolution prolétarienne25 de outubro de 1937)

Sobre Kronstadt em 1921 e alguns outros assuntos (La Révolution prolétarienne25 de agosto de 1938)

Victor Serge e o totalitarismo stalinista (Vídeo em Subversivídeos sobre Victor Serge)

Soldados do Exército Vermelho camuflados de branco para facilitar, sobre o gelo, o massacre dos insurrectos de Kronstadt.


Em uma nota publicada na América, em fim de julho, Leon Trotsky finalmente explicou suas responsabilidades no episódio de Kronstadt. As responsabilidades políticas, como ele sempre afirmou, são do Comitê Central do PC Russo que tomou a decisão de "conter a rebelião pela força das armas se a fortaleza não pudesse ser levada a se render, de início por negociações pacíficas, em seguida por um ultimato”. Trotsky acrescenta: “Eu nunca falei dessa questão, não porque eu tenho qualquer coisa a esconder, mas, ao contrário, precisamente porque não tenho nada a dizer... Eu, pessoalmente, não participei em nada do esmagamento da rebelião nem das repressões que seguiram”.

Trotsky lembra que diferenças o separavam desde então de Zinoviev, o presidente do Soviet de Petrogrado. “Eu permaneci”, escreve ele, “completamente e demonstrativamente à parte desse assunto”. Cabe em história distinguir entre as responsabilidades políticas gerais e as responsabilidades pessoais imediatas. [Rodapé:  Como alguns dos ataques aos quais faço alusão vêm da imprensa anarquista, que me seja permitido aqui definir meu pensamento com a ajuda de um exemplo recente: os camaradas do P.O.U.M. e da C.N.T., tendo sido perseguidos e impunemente assassinados na República espanhola, quando a C.N.T. participa em diversos níveis do governo burguês, a C.N.T. tem evidentemente parte da responsabilidade política de seus crimes [da República espanhola] contra o movimento operário. Contudo, seria injusto  tornar seus dirigentes pessoalmente responsáveis. (V. Serge)].

“Eu não sei”, escreve ainda Trotsky, “se houve vítimas inúteis. Eu acredito mais em Dzerzhinski do que em seus críticos tardios... As conclusões de Victor Serge – de terceira mão – são destituídas de valor aos meus olhos...” As de Dzerzhisnki são de sétima ou nona mão, pois o chefe da Tcheka não veio a Petrogrado nessa época e ele mesmo foi informado somente por uma via hierárquica sobre a qual haveria muito a dizer (e Trotsky o sabe melhor do que ninguém). Morando em Petrogrado, eu vivia entre os dirigentes da cidade. Eu sei por testemunhos oculares o que foi a repressão. Eu visitava na prisão da Chpalernaya camaradas anarquistas, aprisionados além disso a despeito de todo bom senso, que viam partir vencidos de Kronstadt a cada noite pelo polígono [n.t.: referência à forma do prédio de frente da prisão militar, por onde os presos saiam com destino à execução]. A repressão foi atroz, eu o repito. Segundo historiadores soviéticos, Kronstadt insurrecto dispusera em torno de 16 mil combatentes. Alguns milhares conseguiram chegar à Finlândia pelo gelo. Os outros, às centenas, mais verossímil aos milhares, foram massacrados no final do combate ou executados em seguida. Onde estão as estatísticas de Dizerzhinski – e o que elas valem, se é que as há? Apenas o fato de que um Trotsky, no auge do poder, não tenha tido a necessidade de se informar com precisão sobre essa repressão a um movimento insurrecional de trabalhadores, apenas o fato de que um Trotsky não conhecera o que sabem todos os comunistas da hierarquia: que se tenha cometido por desumanidade um crime inútil contra o proletariado e os camponeses – apenas esse fato, digo eu, é gravemente significativo.

Com efeito, foi no domínio da repressão que o Comitê Central do partido bolchevique cometeu desde o início da revolução as faltas mais graves, as que contribuíram mais perigosamente, de uma parte a burocratizar o partido e o Estado, de outra a desarmar as massas, mais particularmente os revolucionários.  É hora de se entender isso.

Publicado em Serge, Victor; Trotsky, Leon. La lutte contre le stalinisme: correspondance inédite, articles. Paris : François Maspéro, 1977, p. 221-223. Tradução ao português: Emiliano Aquino. 


terça-feira, 4 de maio de 2021

Sobre Kronstadt em 1921 e alguns outros assuntos

Este é o terceiro artigo de Victor Serge, publicado em La Révolution prolétarienne (em 25 de agosto de 1938), sobre o massacre de Kronstadt, nos marcos do debate com Trotsky iniciado onze meses antes, em 10 de setembro de 1937.

Veja também:  

Kronstadt (Révolução Prolétarienne, 10 de setembro de 1937)

Os escritos e os fatos (La Révolution prolétarienne25 de outubro de 1937) 

Kronstadt 1921. Defesa de Trotsky. Resposta a Trotsky. (La Révolution prolétarienne25 de outubro de 1938)

Victor Serge e o totalitarismo stalinista (Vídeo em Subversivídeos sobre Victor Serge)

A carta seguinte foi enviada em fim de abril à redação da excelente revista marxista americana The New International, que publicara vários artigos sobre os acontecimentos de 1921 em Kronstad. 

Victor Serge


Victor Serge, nos últimos anos, no México.


Algum dia responderei aos artigos de Wright e L. D. Trotsky sobre Kronstad. Esse importante assunto merece ser retomado a fundo, e os dois estudos que vocês publicaram estão longe, muito longe, de o esgotar; estou espantado de ver nossos camaradas Wright e L. D. Trotsky  usarem de um raciocínio do qual, me parece, devemos desconfiar e nos abster. Eles constatam que o drama de Kronstadt em 1921 suscita comentários indiscriminadamente de socialistas-revolucionários, mencheviques, anarquistas e outros; e, deste fato, natural numa época de confusão ideológica, de revisão de valores, de confrontos entre seitas, eles deduzem um tipo de amálgama. Desconfiemos dos amálgamas e dos raciocínios mecânicos. Abusou-se muito disso na revolução russa e veja aonde isso conduz: liberais burgueses, mencheviques, anarquistas, marxistas revolucionários consideram o drama de Kronstadt de pontos de vistas diferentes e por razões diferentes das quais é justo e necessário ter conta, em lugar de reunir todos os espíritos críticos sob uma única rubrica e de imputar a todos a mesma hostilidade em face do bolchevismo. 

O problema é, na verdade, muito mais vasto, mesmo que o acontecimento de Kronstadt tenha sido apenas um episódio. Wright e L. D. Trotsky sustentam uma tese muito simples: que a sublevação de Kronstadt foi objetivamente contrarrevolucionário e que a política do Comitê Central de Lênin e Trotsky nessa época foi justa antes, durante e depois. Justa, essa política o era em uma escala histórica. Além disso, grandiosa, o que lhe permite a ser tragicamente e perigosamente falsa, errada, em diversas circunstâncias particulares. Eis o que seria útil e corajoso reconhecer hoje, ao invés de afirmar a infalibilidade de uma linha geral 1917-1923. Resta, em bloco, que as sublevações de Kronstadt e outros lugares significaram ao partido a impossibilidade de perseverar na via do comunismo de guerra. O país morria de estatização excessiva. Quem tinha, portanto, razão? O Comitê Central que se obtinha em uma via sem saída ou as massas levadas ao extremo pela fome? Parece-me inegável que Lênin cometia então o maior erro de sua vida. Precisa lembrar que, algumas semanas antes do estabelecimento da NEP, Bukharin publicava uma obra de Economia demonstrando que o sistema em vigor era ainda a primeira fase do socialismo? Por haver, em suas Cartas a Lênin, preconizado medidas de reconciliação com os camponeses, o historiador Rojkov foi deportado a Psikov. Kronstadt, uma vez insurrecta, precisou ser contida, sem dúvida. Mas o que se fez para prevenir a insurreição? Por que foi recusada a mediação dos anarquistas de Petrogrado? Pode-se, enfim, justificar o massacre insensato e, repito, abominável dos vencidos de Kronstadt, que se fuzilaria ainda em pequenos grupos, na prisão de Petrogrado, três meses após o fim da sublevação? Eram pessoas do povo russo, atrasadas talvez, mas que pertencia às massas da própria revolução.

L. D. Trotsky sublinha que os marinheiros e soldados de Kronstadt em 1921 não eram mais, quanto à consciência revolucionária, as mesmas que aqueles de 1918. É verdade. Mas o partido de 1921 era o mesmo que o de 1918? Não sofrera já  um esmagamento burocrático que, frequentemente, ou o distanciava das massas e o tornava desumano em face delas? Seria bom reler, a esse propósito, as críticas formuladas antes pela Oposição Operária contra o regime burocrático; e também se lembrar dos maus procedimentos que fizeram sua aparição durante a discussão sobre os sindicatos em 1920. De minha parte, fiquei indignado ao ver as manobras das quais fez uso a maioria em Petrogrado para silenciar as vozes dos trotskistas e da Oposição Operária (que defendiam teses diametralmente opostas).

A questão que domina hoje todo debate é em substância esta: quando e como o bolchevismo começou a degenerar?

Quando e como ele começou a usar em face das massas trabalhadoras, das quais exprimia a energia e a consciência mais alta, métodos não socialistas que é preciso condenar, porque elas terminaram por assegurar a vitória da burocracia sobre o proletariado?

Posta essa questão, percebe-se que os primeiros sintomas do mal remontam longe. Desde 1920, os social-democratas mencheviques foram falsamente acusados, em um comunicado da Tcheca, de espionagem para inimigo, de sabotagem, etc. Esse comunicado, monstruosamente falso, serviu para os colocar fora da Lei. A partir do mesmo ano, os anarquistas foram presos na Rússia inteira, após uma promessa formal de legalização do movimento e após o pelo Comitê Central, que não tinha mais necessidade do Exército negro, haver rompido o acordo de paz assinado com Makhno. A justeza revolucionária do conjunto de uma política não pode, a meus olhos, justificar esses funestos procedimentos. E os fatos que eu cito estão infelizmente longe de ser os únicos.

Remontemos a mais longe ainda. Não chegou o momento de constatar que o dia do ano glorioso de 1918, em que o Comitê Central do partido decidiu permitir às comissões extraordinárias [da Tcheca] aplicar a pena de morte em procedimento secreto, sem escutar os acusados que não podiam se defender, é um dia vergonhoso? Neste dia, o Comitê Central podia restabelecer ou não restabelecer um procedimento processual esquecido pela civilização europeia. Em todo caso, ele cometeu um erro. Não cabe necessariamente a um partido socialista vitorioso cometer um erro como esse. A revolução podia se defender a partir do interior –e mesmo impiedosamente –sem isso. Seria melhor defendida sem isso.

Estaríamos muito errados em nos dissimular agora que toda a conquista histórica da revolução russa está posta em questão. Da imensa experiência do bolchevismo, os marxistas revolucionários só saberão o essencial, ou o durável, retomando todos os problemas pela base, com uma verdadeira liberdade de espírito, sem amor próprio de partido, sem hostilidade irredutível (sobretudo na pesquisa histórica) em face das outras tendências do movimento operário. Ao contrário, se nada reconhecermos dos erros antigos, dos quais a história não cessou de ressaltar a gravidade, nos arriscamos a comprometer toda conquista do bolchevismo. O episódio de Kronstadt coloca sempre as questões das relações entre o partido do proletariado e as massas, do regime interno do partido (a Oposição Operária foi intimidada), da ética socialista (todo o Petrogrado foi enganado pelo anúncio de um movimento branco em Kronstadt), da desumanidade na luta das classes e, sobretudo, na luta no seio de nossas classes. Enfim, nos coloca hoje à prova da nossa capacidade de autocrítica.

Não podendo responder mais a fundo, nesse momento, aos camaradas Wright e L. D. Trotsky, espero que vocês achem por bem submeter esta carta aos leitores do The New International. Talvez ela contribua a preparar debates que nós devemos saber conduzir bem em um espírito de camaradagem.

Publicado em Serge, Victor; Trotsky, Leon. La lutte contre le stalinisme: correspondance inédite, articles. Paris : François Maspéro, 1977, p. 217-220. Tradução ao português: Emiliano Aquino.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Os escritos e os fatos

Victor Serge 

Este é o segundo artigo de Victor Serge - sobre a sublevação de Kronstadt em 1921 - que traduzo e disponibilizo neste blog. Foi publicado no dia 25 de outubro de 1937 (portanto, 45 dias depois do anterior). Diferentemente do outro, este se compõe de três notas, cada qual com título próprio. Talvez, por isso, no livro que estou tomando como base (ver após a tradução), o editor tenha dado como título da publicação o nome da coluna que os abriga em Révolution Prolétarienne : « Les écrits et les faits » (Os escritos e os fatos), coluna de crítica política escrita por Victor Serge a partir de 1936. A Lutte Ouvrière é a publicação do Partido Operário Internacionalista (Parti Ouvrier Internationaliste), fundado em 1936, secção francesa do Movimento pela IVª Internacional e, a partir de 1938, da IVª Internacional. Nesta tradução, os termos entre colchetes são meus.

Veja também: 

 

Kronstadt (Révolução Prolétarienne, 10 de setembro de 1937)

Sobre Kronstadt em 1921 e outros assuntos (Révolução Prolétarienne25 de agosto de 1938) 

Kronstadt 1921. Defesa de Trotsky. Resposta a Trotsky. (La Révolution prolétarienne25 de outubro de 1938) 

Victor Serge e o totalitarismo stalinista (Vídeo em Subversivídeos sobre Victor Serge)

 

Após a infantaria chegar a pé, camuflada de branco, a cavalaria do Exército Vermelho avança. 


Kronstadt 1921

Comentando por sua vez a carta de Leon Trotsky, sobre esse assunto, que eu discutia na Révolution Prolétarienne [Revolução proletária] de 10 de setembro, Lutte Ouvrière [Luta operária] coloca a questão de uma maneira de tal modo unilateral que consegue escamoteá-la completamente. Seria tratar de modo insolente a história e reduzir a uma apologética muito distante de todo o pensamento marxista o trabalho de análise e de reflexão, que cabe a todos nós, se se visse em seu comentário mais do que uma nota apressada redigida, por assim dizer, insensivelmente [sur le marbre]... Lutte Ouvirère escreve:

"A única questão que seria útil responder é esta: a revolução triunfante, mas minada por contradições sociais e econômicas da guerra civil, teve razão ao quebrar movimentos cujo desenvolvimento significava abertura dos partidos à democracia capitalista?" 

Essa não é, evidentemente, a única questão, já que há toda a história do bolchevismo e dos sovietes a conhecer; e isso é quase exatamente o contrário do que os revolucionários sempre se perguntaram, com a inquietude mais legítima, a respeito de Kronstadt. A ditadura do proletariado, exercida pelo partido comunista, teve razão ao reprimir pela força os protestos, as reivindicações, as proposições, as manifestações dos trabalhadores no auge da fome? Poderíamos lembrar que antes de Kronstadt houve Astrakhan. Ela teve razão ao reprimir movimentos que, sob sua égide, pediam apenas a democracia operária? Estou inclinado a pensar que, desde cedo, se pesou a mão, isto é, se abusou de métodos administrativos e militares a respeito das massas e dos dissidentes da revolução. A experiência mostrou que isso franqueou a via ao despotismo burocrático. Há aí uma lição a tirar para se retornar a ideia da ditadura do proletariado (contra os possuidores despossuídos), larga e verdadeira democracia dos trabalhadores.

A Lutte Ouvrière "compreende além disso a ocasião de destruir a lenda que quer que Kronstadt em 1921 tenha sido um imenso massacre. A verdade é outra... ". Outra a verdade, camaradas? Muito bem, diga-a: sejam precisos, indiquem suas fontes... Um massacre não precisa ser imenso para ser abominável e, por definição, antissocialista. Às centenas, senão aos milhares, os marinheiros de Kronstadt foram fuzilados. Três meses depois, ainda saíam das prisões de Petrogrado à noite, em pequenos grupos, para serem executados em porões ou quadras militares. Três meses depois, quando a NEP que eles tinham reclamado estava proclamada, quando sua morte – secreta – não podia servir nem mesmo para intimidação! E não eram brancos...

Toda essa página sombria parece prefigurar um futuro do qual vemos hoje, pois se tornou presente, as trevas. A Lutte Ouvrière lembra que o Xº Congresso do partido [bolchevique, em 1921], inspirado por Lênin, enviou um grande número de seus delegados para o assalto a Kronstadt, mas ela não diz tudo a esse respeito. O Xº Congresso do partido condenará solenemente a Oposição Operária que denunciava desde então as ururpações da burocracia e reclamava mais democracia para os trabalhadores. Pela primeira vez, uma oposição, e que tinha grande razão em vários pontos (Lênin e Trotsky iriam se aperceber disso dois anos mais tarde), estava marcada com um epíteto que não correspondia em nada à sua doutrina (a resolução do Congresso taxa esses bolcheviques de anarco-sindicalistas), ameaçada de exclusão e intimidada pelo envio de seus delegados ao front de Kronstadt. Dybenko, notadamente, foi para lá: ele, que passava por anarquizante.

Releiam a plataforma da Oposição Operária de 1920-21 e pensem que, dezoito meses mais tarde, Lênin, quase no limite de suas forças, proporá a Trotsky um pacto de combate contra a burocracia do partido, cada vez mais insolente. E pensem que, dois anos mais tarde, a Oposição de Esquerda (Trotsky, Preobajenski, Serebriakov, Piatakov, Rakovski) trava seu primeiro combate e será derrotada: já é muito tarde.

Dois dos autores da plataforma da Oposição operária, velhos militantes de um quarto de século da revolução, aprisionados há anos, estão talvez ainda vivos em alguma penitenciária: Chlianikov e Medvedev. Alexandra Kollontai sobreviveu na carreira diplomática...

Contra o espírito de seita

Esses assuntos estão ainda quentes... Essa é uma razão para não tocar neles? Ao contrário. Vinte anos após a primeira revolução socialista vitoriosa, nós nos sentimos vencidos. De uma magnífica vitória dos trabalhadores, vimos nascer, sobre as bases de uma propriedade socialista dos meios de produção, um regime inumano, profundamente antissocialista pelo tratamento que inflige ao homem. Diante desses resultados, as querelas de seitas não devem retomar? E nossos adversários comuns não fazem um jogo de cena?  É fácil (tão bobo) concluir pela falência das revoluções, do marxismo etc.; e fácil aos reformistas dizerem: Ah, se se tivesse seguido os caminhos da democracia! (Como se esses caminhos não tivessem sido seguidos, infelizmente, até o pior limite, em Itália, em Alemanha e em Áustria!). É fácil aos libertários exclamarem: Ah, se tivessem deixado os anarquistas russos fazerem!, enquanto a revolução espanhola vai de derrota em derrota sob nossos olhos, apesar da hegemonia dos anarquistas no movimento operário – e sua boa vontade e sua admirável coragem, que ninguém contestará. Duas palavras pessoais a esse respeito. Os anarquistas frequentemente me reprovaram não ter me levantado suficientemente, na URSS, no tempo de Lênin, contra a repressão ao anarquismo. Essa repressão, sempre a considerei como uma falta, e eu fiz tudo o que pude, em todas as circunstâncias, com tenacidade, para cessá-la ou atenuá-la; mas eu não podia grande coisa. Dever-se-ia melhor compreender agora essas situações, à luz dos acontecimentos da Espanha. Os delegados da CNT ao Congresso extraordinário dos soviets do ano passado não fizeram nada, nada puderam fazer pelos seus camaradas russos perseguidos. A CNT não pôde impedir o estrangulamento do POUM e nem mesmo colocou amplamente a questão do assassinato de [Andrés] Nin. Viu seus próprios membros aprisionados às centenas quando ela participava do poder! Não ignoro, além disso, que ela prepare suas intervenções nos bastidores. Se a CNT não pôde impedir em Espanha a perseguição aos anarquistas, que poderia, na revolução russa, um militante isolado?

Diante de uma tão vasta experiência de vinte anos e mais, eu vejo apenas uma atitude fecunda, aquela da análise crítica e do desarmamento do espírito de seita. Tratar-nos uns aos outros como pequenos burgueses em lugar de estudar, com sangue frio, sob todos os seus aspectos, os acontecimentos de 1921, por exemplo, não conduziria a nenhuma parte. Confrontemos antes de tudo nossos pontos de partida mais sãos com a realidade. As ideias justas não se impõem, mas se as clarifica pelo estudo e pela reflexão, com boa vontade. Os preciosos exemplos que nos aportava a revolução russa estão obscurecidos, sujos, comprometidos pela contrarrevolução burocrática que sequestrou as velhas bandeiras; só as reencontraremos liberando nosso espírito das fórmulas usadas, dos clichês desacreditados, dos ressentimentos de seita ou de pessoas e, sobretudo, da insuportável pretensão ao monopólio da verdade.

Bolchevismo e anarquismo

De um notável artigo sobre as relações, ou antes, o antagonismo total do bolchevismo e do stalinismo (Boletim de Oposição, nº 58-59), essas linhas inéditas:

“O autor discutiu muitas vezes com Lênin a possibilidade de oferecer aos anarquistas partes do território onde teriam podido, de acordo com a população, prosseguir suas experiências sem Estado, mas a guerra civil, o bloqueio e a fome deixaram pouco espaço para semelhantes planos".

Essa teria sido a única solução justa ao problema do anarquismo russo, pois é bem evidente que os camponeses libertários, reunidos sob as bandeiras negras de um Makhno, tinham direito à autonomia tanto quanto qualquer minoria étnica. As ideias dos trabalhadores não têm na revolução um menor direito de cidadania que o sentimento nacional. Mas nenhuma tentativa séria foi feita nesse sentido, a despeito dos acordos tratados com Makhno contra os brancos, e prontamente desrespeitados – em ambos os lados ao mesmo tempo; as maiores responsabilidades devem ser, em todo caso, atribuídos ao mais forte, ao mais bem organizado, isto é, ao governo bolchevique.

A guerra civil, a fome, o bloqueio tornaram realmente impossível uma política de tolerância para com do anarquismo? O movimento anarquista, como todos os outros movimentos de opinião revolucionária, foi completamente abafado pela repressão somente após a vitória [do governo bolchevique na guerra civil] e o fim da fome, quando o poder burocrático começou a se firmar abertamente, de rosto descoberto. Os dissidentes da revolução tiveram a maior liberdade relativa precisamente durante a guerra civil e a fome e não esqueçamos que contribuíram com a vitória dos soviets: Makhno tinha desorganizado a retaguarda de Denikin, Makhno foi um dos primeiros a chegar à Crimeia branca. Parece certo constatar que, a partir do fim de 1918-19, um espírito de autoridade, de intolerância, de estatismo excessivo prevaleceu cada vez mais no Comitê Central, eliminando cada vez mais brutalmente os princípios de Outubro. Nem Lênin nem Trotsky o contrariaram realmente, limitaram-se a se servir dele. Tnham razão que a salvação está na maior firmeza, na organização mais forte do novo Estado socialista, na disciplina mais rigorosa. Preciamos refletir, nada disso é incompatível com a democracia operária. Bem ao contrário. Mas os espíritos clarividentes do partido estão sobrecarregados, esgotados, exaustos: a revolução tem poucos homens. O sucesso dos métodos despóticos vem precisamente de que  estão ao alcance de qualquer um, e foram desde cedo impostos pelos arrivistas que formaram depois disso a burocracia.

Publicado em Serge, Victor; Trotsky, Leon. La lutte contre le stalinisme: correspondance inédite, articles. Paris : François Maspéro, 1977, p. 182-188. Tradução ao português: Emiliano Aquino.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Kronstadt

Victor Serge 

Em 5 de março deste ano, o massacre da insurgência do Soviet de Kronstadt em face do governo do partido bolchevique fez 100 anos. Espero que este seja apenas o primeiro de uma pequena série de textos (cartas, artigos, anotações no diário) de Victor Serge, nos anos 1937-38, sobre o soviet rebelde de Kronstadt, que traduzirei e publicarei aqui (por favor, aceito propostas de correção!). Este foi publicado em sua coluna « Les écrits et les faits » (Os escritos e os fatos), em La révolution prolétarienne, a 10 de setembro de 1937. Os termos entre colchetes se encontram na prórpia edição da Maspéro.

Veja também: 

Os escritos e os fatos (La révolution prolétarienne, a 25 de outubro de 1937) 

Sobre Kronstadt em 1921 e outros assuntos (Révolução Prolétarienne25 de agosto de 1938) 

Kronstadt 1921. Defesa de Trotsky. Resposta a Trotsky. (La Révolution prolétarienne25 de outubro de 1938)  

Victor Serge e o totalitarismo stalinista (Vídeo em Subversivídeos sobre Victor Serge)

 


Ataque do Exército Vermelho à fortaleza insurrecta de Kronstadt, no início de março de 1921, quando o gelo já derretia.

Respondendo a um jornalista alemão que o havia interrogado sobre esse assunto, Leon Davidovitch Trotsky publica no Boletim de Oposição Bolchevique-leninista russo (número de julho de 1937) uma carta muito curta sobre a questão da Insurreição de Kronstadt de 1921 e sobre Makhno. Ida Mett respondeu a ele aqui mesmo apresentando novas questões muito judiciosas. Ninguém, a não ser Trotsky, pode dar-nos um dia o grande livro histórico sobre os anos mais duros e mais memoráveis da revolução que nos é necessário a todos para esboçar o balanço dessa imensa experiência. Nós somos numerosos a aguardar e a desejar algo concebido um pouco num espírito crítico, talvez autocrítico... E é por isso que as poucas linhas publicadas pelo Boletim de Oposição me parecem hoje insuficientes e injustos sob diversos pontos de vista. "Resta [a Kronstadt], escreve Trotsky, a massa cinzenta, com grandes pretensões, não disposta a sacrifícios pela revolução. O país passava fome. Os marinheiros de Kronstadt exigiam privilégios... O movimento tinha, assim, um caráter contrarrevolucionário e, tendo os marinheiros apoderado-se da fortaleza, não se tinha outra opção que os conter pela força”. Eu estava em Petrogrado nesse momento, colaborando com Zinoviev; eu vi os acontecimentos de perto; eu li muito atentamente em sequência a coleção dos Izvestia do soviet de Kronstadt insurrecto. É verdade que o país passava fome; seria mesmo verdadeiro dizer que o país estava no limite de suas forças, que ele todo morria literalmente de fome. Mas é inexato que os marinheiros de Kronstadt exigissem privilégios; eles reivindicavam para as cidades em geral a supressão das barreiras policiais (zagraditelnye otriady) que impediam a população de se reabastecer em seus campos por seus próprios meios; mais tarde, quando se viram engajadas em um combate mortal, eles formularam uma reivindicação política extremamente perigosa nesse momento, mas [uma reivindicação política] geral, sinceramente revolucionária e, portanto, desinteressada: "soviets livremente eleitos".

Teria sido fácil evitar a sublevação escutando as reclamações de Kronstadt, discutindo-as; até mesmo satisfazendo aos marinheiros (teríamos a prova disso em pouco tempo). O Comitê Central cometeu o enorme erro de lhes enviar Kalinine, que se conduzia já como um burocrata incapaz e duro, que soube apenas ameaçar, levando vaias. Teria sido fácil, mesmo quando a batalha já tinha começado, evitar o pior: bastaria aceitar a mediação oferecida pelos anarquistas (Emma Goldman e Alexandre Berkman, notadamente) que tinham um contato seguro com os insurrectos. Por razão de prestígio, por excesso de autoritarismo, o Comitê Central se recusou a isso. Em tudo isso, foi enorme a responsabilidade de Zinoviev, presidente do soviete de Petrogrado, que enganou toda a organização do partido, todo o proletariado da cidade, toda a população nos anunciando que "o general branco Kozlowski tinha se apoderado de Kronstadt por traição”. Teria sido fácil, humano, mais político e mais socialista, após a vitória militar conquistada sobre Kronstadt por Vorochilov, Dybenko, Toukhatchevski, não recorrer ao massacre... O massacre que seguiu foi abominável.

As reivindicações econômicas de Kronstadt eram de tal modo legítimos, tão pouco contrarrevolucionárias na realidade, tão fácil de satisfazer que, no momento mesmo em que se fuzilavam os últimos amotinados, Lênin satisfazia essas reivindicações adotando a "nova política econômica"... A NEP lhe foi imposta pelas sublevações de Kronstadt, de Tambov e de outros lugares. Pois é preciso dizer: a clarividência de Lênin e do Comitê Central estava terrivelmente frágil havia vários meses; o Comitê Central não queria ver o que o país inteiro sentia e sabia: que o comunismo de guerra tinha se tornado um impasse em que não se podia viver.

Trotsky havia compreendido isso um ano antes. Desde fevereiro de 1920, ele propunha ao Comitê Central um conjunto de medidas suprimindo as requisições de grãos e estabelecendo uma nova política econômica. Lênin as recusou. Trotsky recuou. Seu erro iria custar muito sofrimento e sangue ao povo russo. Por que não o dizer? Não temos nenhuma necessidade da lenda mentirosa de um Lênin infalível.

Uma vez a batalha engajada entre a Kronstadt vermelha e o governo soviético, a questão se punha nesses termos: qual das duas forças em luta representava melhor o interesse superior dos trabalhadores? Duas cegueiras se chocavam em realidade. Os condutores da insurreição, anarquistas e socialistas revolucionários de esquerda, esperavam uma "terceira revolução" contra a ditadura do partido. Eles não viam – o que, contudo, estava evidente – que o país estava esgotado, sua vanguarda revolucionária estava já dizimada, não tinha mais nem os recursos morais nem os recursos materiais, nem os homens nem as ideias de uma nova revolução mais socialista. Eles desejavam desencadear os elementos de uma tormenta purificadora, mas, em realidade, teriam podido apenas abrir as portas a uma contrarrevolução, camponesa de início, da qual teriam prontamente tomado partido os brancos e a intervenção estrangeira. (Pilsudski se preparava para lançar seus exércitos sobre a Ucrânia). Kronstadt insurrecta não era contrarrevolucionária, mas sua vitória teria conduzido infalivelmente à contrarrevolução. A despeito de seus defeitos e de seus abusos, o partido bolchevique é nesse momento a grande força organizada, inteligente e segura na qual era preciso, apesar de tudo, confiar. A revolução não tem outra armadura e não é mais suscetível de se renovar a fundo. Era como pensávamos nós, comunistas de primeira linha, que ouvíamos tão claramente ranger toda a estrutura do prédio...

Publicado em Serge, Victor; Trotsky, Leon. La lutte contre le stalinisme: correspondance inédite, articles. Paris : François Maspéro, 1977, p. 177-181. Tradução ao português: Emiliano Aquino. 

Tirem seus filhos surdos das escolas de ouvintes!

Foto: O Globo Esse título parece uma palavra de ordem, mas não é. É um grito angustiado.  Todos os anos as três escolas que em Fortaleza ofe...