sábado, 6 de maio de 2023
Os surdos dialogam sim, em línguas de sinais
quarta-feira, 3 de maio de 2023
O que é mesmo Educação Especial de Surdos?
| Sede do Instituto Nacional de Educação de Surdos desde o final do século XIX. Tem alguma coisa a ver com instituições de confinamento? |
A Educação Especial de Surdos nasceu na Europa após o Congresso de Milão (1880). No Brasil, nasceu em 1911. Num caso e noutro, como em todo lugar, surgiu quando foi proibido o uso da Língua de Sinais naquelas escolas cujo modelo foi tomado da Instituição Nacional de Surdos Mudos de Paris (Institution Nationale de Sourds-Muets), fundada em 1755 pelo Abade de l’Épée. Ao contrário do que se costuma lê nos atuais manuais de Educação Especial, essa Instituição se diferenciava radicalmente do Hospital Geral, lugar e instrumento de internamento e reclusão de doentes mentais e pessoas com deficiência.
A escola fundada por de l’Épée ensinava a crianças surdas Francês escrito, Matemática e outros saberes, com base na Língua de Sinais que ele conheceu e aprendeu com os Surdos pobres de Paris, em sua maior parte filhos ou descendentes de camponeses expulsos de suas terras para as cidades durante esse largo período de acumulação primitiva do capital, que antecede e prepara a revolução industrial e a hegemonia econômica das relações sociais capitalistas. O Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), fundado no Brasil como Imperial Instituto de Educação de Surdos Mudos, em 1857, no Rio de Janeiro, também desenvolvia uma proposta educacional institucionalizada com base na Língua de Sinais brasileira e na Língua Portuguesa escrita; e foi, igualmente, fundado num período de transição da economia cafeeira para o trabalho assalariado.
A partir da proibição da Língua de Sinais nas escolas, em todo o mundo as Escolas de Surdos se tornaram Escolas Especiais oralizadoras (no Brasil, o INES foi a primeira a ser transformada nisso), nas quais a REABILITAÇÃO substituiu o ENSINO. E assim a Educação Especial de Surdos surge como a especialidade voltada para o desenvolvimento desse tipo de não-Educação que transformou as escolas em Centros de Reabilitação orofônica.
A Educação Especial é, portanto, historicamente inimiga da Língua de Sinais, do Bilinguismo Surdo e da Cultura Surda. A Educação Especial se constituiu em e se mostrou um dispositivo de dominação e controle dos Surdos pelo Estado, pela Medicina, pela Pedagogia e pelas empresas de aparelhos auditivos, sob o argumento da universalização dos hábitos e das relações (chame-se essa universalização de reabilitação, depois integração ou, agora, inclusão).
A chamada Educação Especial na Perspectiva Inclusiva é continuidade direta da velha Educação Especial inimiga da Língua de Sinais como língua-base do processo educativo. Como diz mais ou menos Foucault, o controle sobre os sujeitos sai agora de instituições específicas para: o "meio". A atual lógica de disciplinamento e controle – que o filósofo francês chama de segurança – não é tópica. Para o poder sobre os Surdos, isso significa: tirá-los das Escolas Especiais oralizadoras, onde se aglutinavam e indisciplinadamente falavam em Língua de Sinais, para as novas escolas lusófonas "inclusivas", onde devem estar separados uns dos outros, em posição de isolamento linguístico e subalternização comportamental. O instrumento para isso é uma admissão astuciosa da Libras. Conquista de 90 anos de lutas dos Surdos, a legalização da Libras em 2002 foi apropriada e desviada para fins "ressocializadores", "recuperadores" pela Educação Especial, que se diz agora Inclusiva.
Também a Escola lusófona inclusiva é a continuidade da antiga Escola Especial oralizadora. Nesses dois tipos de escola, nascidas ambas da Educação Especial contra escolas fundadas na Língua de Sinais, a Língua Portuguesa é a língua de ensino e convivência. É a língua fim. A Escola lusófona inclusiva é uma escola em que o Surdo é aquele que "não ouve", e que, por isso, precisa de apoio do intérprete como nós outros precisamos, por exemplo, de rampas. Como se língua e estrutura arquitetônica tivessem o mesmo estatuto na conformação e no desenvolvimento do pensamento!
A ideia da Educação Especial é que aos poucos a Libras não seja necessária. Crianças oralizadas no consultório, protetizadas pelas grandes empresas e ressocializadas pela escola lusófona não precisarão de Libras no futuro, assim planejam empresas, clínicas e consultorias pedagógicas. Ou ainda, a Libras deixará de ser uma língua real, viva, de comunidades culturais diferentes. Foi assim que os jesuítas fizeram com o Tupi. Aprenderam a língua, deram-lhe escrita e gramática, construíram escolas com base nela. Colocaram as crianças indígenas em antagonismo com sua cultura comunitária, os filhos contra os pais, a nova fé cristã contra a tradição cultural da aldeia. No Brasil, a colonização foi astuciosa: ela procurou integrar índios e negros, não dizimar nem segregar. O resultado é que o Tupi morreu e os índios foram trabalhar nas cozinhas dos brancos.
Todo o atual discurso da "inclusão" é jesuítico: nos métodos e nos fins. Com uma pequena diferença: os jesuítas sabiam o Tupi. Os da Educação Especial não sabem Libras, não conhecem métodos de educação de Surdos, nada! São por isso muito mais violentos no seu exercício do poder conquistado com o discurso inclusivo que seus congêneres colonizadores dos primeiros séculos. Até mesmo porque eles querem fazer em poucos anos o que aqueles fizeram em alguns séculos.
Por isso, foi tão importante a saída da Educação de Surdos da Educação Especial para uma modalidade específica na LDB: Educação Bilíngue de Surdos! É o 13 de maio de 1888 dos Surdos. E o que vai acontecer depois daqui? O que vai acontecer é agora objeto de disputa. Contra a abolição, os senhores de escravos deram o golpe de 15 de novembro de 1889 e mantiveram seu poder sobre a terra. A Educação Especial lutou contra a aprovação da Educação Bilíngue de Surdos na LDB. E hoje luta para ela não dar em nada. Querem manter o monopólio latifundiário sobre os discursos, os conceitos e as verbas, bem como o poder sobre os corpos, a língua e a Educação dos Surdos.
Nossa luta – de Surdos, pais, professores e intérpretes – é para impedir isso.
quarta-feira, 3 de novembro de 2021
A questão surda e os escrúpulos teóricos de Marx
"... o próprio educador deve ser educado". (Marx, Teses sobre Feuerbach).
"No ano de 1842-43, como redator da Gazeta renana, vi-me pela primeira vez, perplexo, perante a dificuldade de ter também de dizer alguma coisa sobre o que se designa por interesses materiais. Os debates do Landtag Renano sobre roubo de lenha e parcelamento da propriedade fundiária, a polêmica oficial que Herr von Schaper, então presidente da província renana, abriu com a Gazeta renana sobre a situação dos camponeses do Mosela, por fim as discussões sobre livre-cambismo e tarifas alfandegárias protecionistas deram-me os primeiros motivos para que me ocupasse com questões econômicas. Por outro lado, tinha-se nesse tempo — em que a boa vontade de 'ir por diante' repetidas vezes contrabalançava o conhecimento das questões — tornado audível na Gazeta renana um eco do socialismo e comunismo francês, sob uma tênue coloração filosófica. Declarei-me contra esta remendaria, mas ao mesmo tempo confessei abertamente, numa controvérsia com a Gazeta geral de Augsburg, que os meus estudos até essa data não me permitiam arriscar eu próprio qualquer juízo sobre o conteúdo das orientações francesas. Preferi agarrar a mãos ambas a ilusão dos diretores da Gazeta renana, que acreditavam poder levar a anular a sentença de morte passada sobre o jornal por meio duma atitude mais fraca deste, para me retirar do palco público e recolher ao quarto de estudo". (Prefácio de 1859).
segunda-feira, 6 de setembro de 2021
Kronstadt 1921. Defesa de Trotsky. Resposta a Trotsky.
Este é o quarto e último artigo de Victor Serge, publicado em La Révolution prolétarienne (em 25 de outubro de 1938), em sua polêmica pública com Trotsky sobre o massacre de Kronstadt, que se iniciou um anos antes, em setembro de 1937.
Veja também:
Kronstadt (Révolução Prolétarienne, 10 de setembro de 1937)
Os escritos e os fatos (La Révolution prolétarienne, 25 de outubro de 1937)
Sobre Kronstadt em 1921 e alguns outros assuntos (La Révolution prolétarienne, 25 de agosto de 1938)
Victor Serge e o totalitarismo stalinista (Vídeo em Subversivídeos sobre Victor Serge)
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| Soldados do Exército Vermelho camuflados de branco para facilitar, sobre o gelo, o massacre dos insurrectos de Kronstadt. |
terça-feira, 4 de maio de 2021
Sobre Kronstadt em 1921 e alguns outros assuntos
Este é o terceiro artigo de Victor Serge, publicado em La Révolution prolétarienne (em 25 de agosto de 1938), sobre o massacre de Kronstadt, nos marcos do debate com Trotsky iniciado onze meses antes, em 10 de setembro de 1937.
Veja também:
Kronstadt (Révolução Prolétarienne, 10 de setembro de 1937)
Os escritos e os fatos (La Révolution prolétarienne, 25 de outubro de 1937)
Kronstadt 1921. Defesa de Trotsky. Resposta a Trotsky. (La Révolution prolétarienne, 25 de outubro de 1938)
Victor Serge e o totalitarismo stalinista (Vídeo em Subversivídeos sobre Victor Serge)
A carta seguinte foi enviada em fim de abril à redação da excelente revista marxista americana The New International, que publicara vários artigos sobre os acontecimentos de 1921 em Kronstad.
Victor Serge
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| Victor Serge, nos últimos anos, no México. |
Algum dia responderei aos artigos de Wright e L. D. Trotsky sobre Kronstad. Esse importante assunto merece ser retomado a fundo, e os dois estudos que vocês publicaram estão longe, muito longe, de o esgotar; estou espantado de ver nossos camaradas Wright e L. D. Trotsky usarem de um raciocínio do qual, me parece, devemos desconfiar e nos abster. Eles constatam que o drama de Kronstadt em 1921 suscita comentários indiscriminadamente de socialistas-revolucionários, mencheviques, anarquistas e outros; e, deste fato, natural numa época de confusão ideológica, de revisão de valores, de confrontos entre seitas, eles deduzem um tipo de amálgama. Desconfiemos dos amálgamas e dos raciocínios mecânicos. Abusou-se muito disso na revolução russa e veja aonde isso conduz: liberais burgueses, mencheviques, anarquistas, marxistas revolucionários consideram o drama de Kronstadt de pontos de vistas diferentes e por razões diferentes das quais é justo e necessário ter conta, em lugar de reunir todos os espíritos críticos sob uma única rubrica e de imputar a todos a mesma hostilidade em face do bolchevismo.
O problema é, na verdade, muito
mais vasto, mesmo que o acontecimento de Kronstadt tenha sido apenas um episódio. Wright
e L. D. Trotsky sustentam uma tese muito simples: que a sublevação de Kronstadt
foi objetivamente contrarrevolucionário e que a política do Comitê Central de Lênin
e Trotsky nessa época foi justa antes, durante e depois. Justa, essa política o
era em uma escala histórica. Além disso, grandiosa, o que lhe permite a ser
tragicamente e perigosamente falsa, errada, em diversas circunstâncias
particulares. Eis o que seria útil e corajoso reconhecer hoje, ao invés de
afirmar a infalibilidade de uma linha geral 1917-1923. Resta, em bloco, que as
sublevações de Kronstadt e outros lugares significaram ao partido a
impossibilidade de perseverar na via do comunismo de guerra. O país morria de estatização
excessiva. Quem tinha, portanto, razão? O Comitê Central que se obtinha em uma
via sem saída ou as massas levadas ao extremo pela fome? Parece-me inegável que
Lênin cometia então o maior erro de sua vida. Precisa lembrar que, algumas
semanas antes do estabelecimento da NEP, Bukharin publicava uma obra de
Economia demonstrando que o sistema em vigor era ainda a primeira fase do
socialismo? Por haver, em suas Cartas a Lênin, preconizado medidas de
reconciliação com os camponeses, o historiador Rojkov foi deportado a Psikov.
Kronstadt, uma vez insurrecta, precisou ser contida, sem dúvida. Mas o que se
fez para prevenir a insurreição? Por que foi recusada a mediação dos
anarquistas de Petrogrado? Pode-se, enfim, justificar o massacre insensato e,
repito, abominável dos vencidos de Kronstadt, que se fuzilaria ainda em pequenos
grupos, na prisão de Petrogrado, três meses após o fim da sublevação? Eram
pessoas do povo russo, atrasadas talvez, mas que pertencia às massas da própria
revolução.
L. D. Trotsky sublinha que os
marinheiros e soldados de Kronstadt em 1921 não eram mais, quanto à consciência
revolucionária, as mesmas que aqueles de 1918. É verdade. Mas o partido de 1921
era o mesmo que o de 1918? Não sofrera já
um esmagamento burocrático que, frequentemente, ou o distanciava das
massas e o tornava desumano em face delas? Seria bom reler, a esse propósito,
as críticas formuladas antes pela Oposição Operária contra o regime burocrático;
e também se lembrar dos maus procedimentos que fizeram sua aparição durante a
discussão sobre os sindicatos em 1920. De minha parte, fiquei indignado ao ver
as manobras das quais fez uso a maioria em Petrogrado para silenciar as vozes
dos trotskistas e da Oposição Operária (que defendiam teses diametralmente opostas).
A questão que domina hoje todo
debate é em substância esta: quando e como o bolchevismo começou a degenerar?
Quando e como ele começou a usar
em face das massas trabalhadoras, das quais exprimia a energia e a consciência
mais alta, métodos não socialistas que é preciso condenar, porque elas
terminaram por assegurar a vitória da burocracia sobre o proletariado?
Posta essa questão, percebe-se
que os primeiros sintomas do mal remontam longe. Desde 1920, os
social-democratas mencheviques foram falsamente acusados, em um comunicado da Tcheca,
de espionagem para inimigo, de sabotagem, etc. Esse comunicado, monstruosamente
falso, serviu para os colocar fora da Lei. A partir do mesmo ano, os
anarquistas foram presos na Rússia inteira, após uma promessa formal de
legalização do movimento e após o pelo Comitê Central, que não tinha mais
necessidade do Exército negro, haver rompido o acordo de paz assinado com Makhno.
A justeza revolucionária do conjunto de uma política não pode, a meus olhos, justificar
esses funestos procedimentos. E os fatos que eu cito estão infelizmente longe
de ser os únicos.
Remontemos a mais longe ainda. Não
chegou o momento de constatar que o dia do ano glorioso de 1918, em que o Comitê
Central do partido decidiu permitir às comissões extraordinárias [da Tcheca] aplicar
a pena de morte em procedimento secreto,
sem escutar os acusados que não podiam se defender, é um dia vergonhoso? Neste
dia, o Comitê Central podia restabelecer ou não restabelecer um procedimento
processual esquecido pela civilização europeia. Em todo caso, ele cometeu um
erro. Não cabe necessariamente a um partido socialista vitorioso cometer um
erro como esse. A revolução podia se defender a partir do interior –e mesmo
impiedosamente –sem isso. Seria melhor defendida sem isso.
Estaríamos muito errados em nos dissimular
agora que toda a conquista histórica da revolução russa está posta em questão. Da
imensa experiência do bolchevismo, os marxistas revolucionários só saberão o
essencial, ou o durável, retomando todos os problemas pela base, com uma
verdadeira liberdade de espírito, sem amor próprio de partido, sem hostilidade
irredutível (sobretudo na pesquisa histórica) em face das outras tendências do
movimento operário. Ao contrário, se nada reconhecermos dos erros antigos, dos
quais a história não cessou de ressaltar a gravidade, nos arriscamos a
comprometer toda conquista do bolchevismo. O episódio de Kronstadt coloca
sempre as questões das relações entre o partido do proletariado e as massas, do
regime interno do partido (a Oposição Operária foi intimidada), da ética
socialista (todo o Petrogrado foi enganado pelo anúncio de um movimento branco
em Kronstadt), da desumanidade na luta das classes e, sobretudo, na luta no
seio de nossas classes. Enfim, nos coloca hoje à prova da nossa capacidade de
autocrítica.
Não podendo responder mais a fundo, nesse momento, aos camaradas Wright e L. D. Trotsky, espero que vocês achem por bem submeter esta carta aos leitores do The New International. Talvez ela contribua a preparar debates que nós devemos saber conduzir bem em um espírito de camaradagem.
Publicado em Serge, Victor; Trotsky, Leon. La lutte contre le stalinisme: correspondance inédite, articles. Paris : François Maspéro, 1977, p. 217-220. Tradução ao português: Emiliano Aquino.
Tirem seus filhos surdos das escolas de ouvintes!
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